domingo, 10 de outubro de 2010

Sem ar

O ar falta e corremos desesperadamente em busca da garrafa de oxigénio que temos na despensa.
O ar está a acabar e apercebemo-nos de que fomos demasiadas vezes a correr para a garrafa. Levamos a mão à garganta num gesto repentino de ansiedade, e sentamo-nos contra a porta da despensa a tentar respirar devagar. A mão sobe à maçaneta da porta e com pouca vontade levantamo-nos. Saímos da despensa sem ter usado a garrafa para pensar que talvez nunca a devêssemos ter usado. A respirar com dificuldade abrimos a janela para deixar entrar o ar fresco da noite. O frio corta-nos a garganta sem pedir licença e caímos perplexos na cama com os olhos vermelhos. Olhamos o tecto e constatamos que complicamos demasiado, que não lutamos procurando sempre o caminho mais fácil. Levantamo-nos na direcção da janela aberta e a olhar o escuro da noite inspiramos a maior golfada de ar que nos é permitida, fechamos os olhos e expiramos. É simples, afinal é simples. Fechamos a despensa à chave e atiramos a chave na noite escura esperando que esta se perca para sempre. A garrafa lá dentro ficou, e devagar adormecemos na cama onde antes nos contorcemos sem ar.