sábado, 8 de janeiro de 2011

Hoje alguém chorou nos meus braços

Hoje alguém chorou nos meus braços. Senti-me inútil antes, e depois. Mas na verdade, fui mais do que imagino, pois uma vez alguém foi mais para mim do que imagina. Controlei a minha mísera dor, e segurei nas mãos, limpei a cara e dei tudo o que tinha. E mais uma vez constatei que o sentir é-o na verdadeira essência da palavra quando nos encontramos frente a frente, podendo ler o olhar e a dor. Aí podemos ter a certeza de que estamos presentes e que ali, ali ninguém vai cair. Hoje vi e senti o mundo de alguém girar lenta e dolorosamente, vi a terra a tremer, os pulmões a arder e o coração a sangrar. Segurei por momentos esse mundo, sabendo, e lamentado não o poder fazer para sempre. E jurei olhar sempre por ele. Segurei a mão, e quando a larguei, jurei nunca falhar, pois ninguém tem de sofrer sozinho, não alguém puro e com um espírito límpido como quem eu agarrei.

Hoje anseio pelo fim do dia, porque quero que nasça um novo depressa, quero que nasçam mais e mais dias, porque o tempo é o antídoto da dor constante. E eu só quero um mundo tranquilo, a respirar com o coração a bater. Com o sorriso ímpar que tão bem conheço, do tamanho do sol, e com a beleza do mar.

Amanhã o sol vai nascer, no céu e na cara brilhante de alguém que hoje chorou nos meus braços.


7 de Janeiro de 2011

Maria Dias

domingo, 10 de outubro de 2010

Sem ar

O ar falta e corremos desesperadamente em busca da garrafa de oxigénio que temos na despensa.
O ar está a acabar e apercebemo-nos de que fomos demasiadas vezes a correr para a garrafa. Levamos a mão à garganta num gesto repentino de ansiedade, e sentamo-nos contra a porta da despensa a tentar respirar devagar. A mão sobe à maçaneta da porta e com pouca vontade levantamo-nos. Saímos da despensa sem ter usado a garrafa para pensar que talvez nunca a devêssemos ter usado. A respirar com dificuldade abrimos a janela para deixar entrar o ar fresco da noite. O frio corta-nos a garganta sem pedir licença e caímos perplexos na cama com os olhos vermelhos. Olhamos o tecto e constatamos que complicamos demasiado, que não lutamos procurando sempre o caminho mais fácil. Levantamo-nos na direcção da janela aberta e a olhar o escuro da noite inspiramos a maior golfada de ar que nos é permitida, fechamos os olhos e expiramos. É simples, afinal é simples. Fechamos a despensa à chave e atiramos a chave na noite escura esperando que esta se perca para sempre. A garrafa lá dentro ficou, e devagar adormecemos na cama onde antes nos contorcemos sem ar.

sábado, 1 de maio de 2010

Arte

Até que ponto é que aquilo que vemos pode ser considerado arte? Sabemos que com o passar dos anos a arte a evoluiu, e que o que antes não era, agora é chamado de arte. Mas haverá fronteiras? Limites? O conceito de arte desde há uns tempos ter-se-á vindo a deteriorar dado que agora qualquer um é artista. A abrangência e liberdade que dão aos artistas começam a ridicularizar a própria arte, afundando-a num mar de ignorância, banalizando-a sem dó nem piedade.
Está claro pois, que apesar do pouco esforço que alguns têm com a sua arte, esses “alguns” são reconhecidos.
A arte moderna está a mostrar o seu lado simplista, onde a dita de simplicidade é a arma destrutiva da suposta beleza inerente à arte. Desde quando uma tela branca com um ponto vermelho no meio é arte? A sociedade está a ser alvo de troça destes artistas fingidos que se escondem atrás de grandes homens e obras verdadeiramente trabalhadas.
Sou grande apreciadora de arte moderna, mas de arte.

Dedicado a Rita Alarcão

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Nós somos o limite

E então fazemos um esforço desesperado para cortar as amarras que apertam o nosso conhecimento, a nossa mente. Que vontade infinita de viver para conhecer e aprender. Que vontade incontrolável de mudar, querer fazer desaparecer tudo o que nos é intrínseco que nos limita a visão alargada do mundo que percorremos, das situações que vivemos, das decisões que tomamos. Porque tudo é ditado pelo que somos, e quando o que somos se transforma numa barreira temos de a contornar trabalhando em nosso prol. E nasce uma pessoa melhor, nascerá? Fico por aqui.

Na chuva

Porque quando olhas a chuva a cair suavemente do outro lado do vidro tudo se desvanece numa poça sem sentido. A música ecoa no fundo de ti em perfeita sincronia com cada gota que segues do princípio do céu até ao princípio da terra. Porque só quando a chuva cessar tu vais parar. Parar de pensar e divagar nos teus mais profundos pensamentos, só teus. Se vais um dia correr comigo no meio dessa chuva com a imensa confusão de pensamentos no teu íntimo, não sei. Mas mais tarde um dia, saberei.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Baleias e Peixes...

“Se as Baleias roncaram, tinha mais desculpa a sua arrogância na sua grandeza. Mas ainda nas mesmas Baleias não seria essa arrogância segura. O que é a Baleia entre os peixes era o gigante Golias entre os homens. (…) Bastou um pastorzinho com um cajado e uma funda, para dar com ele em terra. Os arrogantes e soberbos tomam-se com Deus; quem se toma com Deus, sempre fica debaixo. Assim que, amigos roncadores, o verdadeiro conselho é calar e imitar a S. António. Duas cousas há nos homens que os costumam fazer roncadores, porque ambas incham: saber e poder.”

Padre António Vieira, Sermão de Santo António aos Peixes



De facto, o Mundo, Portugal, é feito de classes. Somos peixes a vaguear num mar imenso e profundo onde quem domina são as baleias e os grandes peixes de peito inchado que roncam, bufam, obrigam, criticam, e que para si não olham. Para si não olham não, com o dinheiro sujo a jorrar dos bolsos longos a arrastar pelo chão. Crianças sim, os olham de baixo a alto, e de alto a baixo voltam a olhar, baixando o olhar e espelhando a tristeza dos pais que trabalham arduamente, mais do podem, mais do que devem. Sacrifício. Crianças que espelham o sacrifício dos pais. O povo portanto, o nosso Povinho Peixe, que serve o Governo Baleia. Governo Baleia que nos ataca todos os dias, Governo Baleia esse sim, com o saber e com o poder. Porque quem pode, pode, e quem pode, ganha saber. E lá em cima (ou no fundo dos mares), onde o poder domina, o saber expande-se por redes infinitas, onde infelizmente, o Povinho Peixe não chega.
Agora o nosso Povinho Peixe tem algo que o Governo Baleia não tem. Crença. Fraternidade. Solidariedade. Amizade. Por detrás do saber do Governo Baleia está a estupidez e a solidão. Inferno? Castigo suficiente, mesmo assim não. Contudo, e o poder para castigar, o Povinho Peixe não o tem, só a esperança de morte do Governo Baleia, morte por estupidez, morte por tomada de consciência. É que o no fim quem ri é o Povinho Peixe, e no chão o Governo Baleia.
Acordando para a realidade portuguesa, o Povinho Peixe, neste momento, limita-se a sentar-se sobre a esperança, num compasso de espera infinito enquanto o Governo Baleia arrecada lenha para se queimar. E o fim há-de chegar, Santo António esperou, desesperou e ao fim chegou. Assim é esperado do Povinho Peixe, com sucesso.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Papéis

Os papéis esvoaçavam. Os papéis que traziam textos, que traziam frases, que traziam palavras, que traziam letras. E as letras agrupavam-se estética e logicamente. Raios, eram mesmo muitas aquelas letras, quase incompreensíveis. Nas vírgulas pausei, nos pontos parei, às vezes interroguei e exclamei. Mas juro, nada entendi, ou então entendi, estava mesmo difícil. Não entendo porque não percebi na altura, ou então entendo. A imaturidade tomava conta de mim e brincava comigo como se eu fosse de papel. Mas um papel branco, liso, por utilizar. Agora sou um papel escrito, escrito e velho. Talvez por isso consiga ler outros papéis. Mas estes papéis só os entendi passado muito, mas muito tempo. Estes papéis mataram-me a cabeça, estes papéis que fui lendo, estes papéis que eu estudei, estes papéis com quem eu aprendi, pareciam professores. Eram professores. Estes papéis, ah… saudades destes papéis. E agora esvoaçam, à minha frente. Que degredo eu assisto. Que dor eu sinto. Mas algum dia tinha de a sentir. Na realidade nunca me preparei para ela, mas eu sabia, eu sabia. Os papéis, que morriam à minha frente, eram meus pais. E eu o filho. Onde um dia eu tinha estado em branco, eles escreveram, onde um dia eu tinha errado, eles corrigiram. E os papéis manchados de borrões de tinta, palavras sábias, e textos complicados, tinham-me passado alguma dessa confusão, ou não.
Eu agradeço e choro. Acho que vou sempre chorar. Pelo menos tenho a escrita deles em mim entranhada, e um dia ficarei amachucado. Por enquanto sou lido e vou lendo.