domingo, 21 de fevereiro de 2010

Baleias e Peixes...

“Se as Baleias roncaram, tinha mais desculpa a sua arrogância na sua grandeza. Mas ainda nas mesmas Baleias não seria essa arrogância segura. O que é a Baleia entre os peixes era o gigante Golias entre os homens. (…) Bastou um pastorzinho com um cajado e uma funda, para dar com ele em terra. Os arrogantes e soberbos tomam-se com Deus; quem se toma com Deus, sempre fica debaixo. Assim que, amigos roncadores, o verdadeiro conselho é calar e imitar a S. António. Duas cousas há nos homens que os costumam fazer roncadores, porque ambas incham: saber e poder.”

Padre António Vieira, Sermão de Santo António aos Peixes



De facto, o Mundo, Portugal, é feito de classes. Somos peixes a vaguear num mar imenso e profundo onde quem domina são as baleias e os grandes peixes de peito inchado que roncam, bufam, obrigam, criticam, e que para si não olham. Para si não olham não, com o dinheiro sujo a jorrar dos bolsos longos a arrastar pelo chão. Crianças sim, os olham de baixo a alto, e de alto a baixo voltam a olhar, baixando o olhar e espelhando a tristeza dos pais que trabalham arduamente, mais do podem, mais do que devem. Sacrifício. Crianças que espelham o sacrifício dos pais. O povo portanto, o nosso Povinho Peixe, que serve o Governo Baleia. Governo Baleia que nos ataca todos os dias, Governo Baleia esse sim, com o saber e com o poder. Porque quem pode, pode, e quem pode, ganha saber. E lá em cima (ou no fundo dos mares), onde o poder domina, o saber expande-se por redes infinitas, onde infelizmente, o Povinho Peixe não chega.
Agora o nosso Povinho Peixe tem algo que o Governo Baleia não tem. Crença. Fraternidade. Solidariedade. Amizade. Por detrás do saber do Governo Baleia está a estupidez e a solidão. Inferno? Castigo suficiente, mesmo assim não. Contudo, e o poder para castigar, o Povinho Peixe não o tem, só a esperança de morte do Governo Baleia, morte por estupidez, morte por tomada de consciência. É que o no fim quem ri é o Povinho Peixe, e no chão o Governo Baleia.
Acordando para a realidade portuguesa, o Povinho Peixe, neste momento, limita-se a sentar-se sobre a esperança, num compasso de espera infinito enquanto o Governo Baleia arrecada lenha para se queimar. E o fim há-de chegar, Santo António esperou, desesperou e ao fim chegou. Assim é esperado do Povinho Peixe, com sucesso.