Os papéis esvoaçavam. Os papéis que traziam textos, que traziam frases, que traziam palavras, que traziam letras. E as letras agrupavam-se estética e logicamente. Raios, eram mesmo muitas aquelas letras, quase incompreensíveis. Nas vírgulas pausei, nos pontos parei, às vezes interroguei e exclamei. Mas juro, nada entendi, ou então entendi, estava mesmo difícil. Não entendo porque não percebi na altura, ou então entendo. A imaturidade tomava conta de mim e brincava comigo como se eu fosse de papel. Mas um papel branco, liso, por utilizar. Agora sou um papel escrito, escrito e velho. Talvez por isso consiga ler outros papéis. Mas estes papéis só os entendi passado muito, mas muito tempo. Estes papéis mataram-me a cabeça, estes papéis que fui lendo, estes papéis que eu estudei, estes papéis com quem eu aprendi, pareciam professores. Eram professores. Estes papéis, ah… saudades destes papéis. E agora esvoaçam, à minha frente. Que degredo eu assisto. Que dor eu sinto. Mas algum dia tinha de a sentir. Na realidade nunca me preparei para ela, mas eu sabia, eu sabia. Os papéis, que morriam à minha frente, eram meus pais. E eu o filho. Onde um dia eu tinha estado em branco, eles escreveram, onde um dia eu tinha errado, eles corrigiram. E os papéis manchados de borrões de tinta, palavras sábias, e textos complicados, tinham-me passado alguma dessa confusão, ou não.
Eu agradeço e choro. Acho que vou sempre chorar. Pelo menos tenho a escrita deles em mim entranhada, e um dia ficarei amachucado. Por enquanto sou lido e vou lendo.